Crack na novela Passione: realidade e ficção

Escrita por Silvio de Abreu, a novela das 21h da Rede Globo, joga na cara das autoridades ligadas à saúde a lacuna existente entre o discurso da desospitalização e a falta de políticas eficientes para tratamento de dependentes químicos.

Por Fernando Moraes

Passione, como todas as telenovelas nacionais, é um entretenimento com histórias de amor, intrigas, tragédias, comédias, não para serem ou parecerem reais, mas para prender a atenção dos telespectadores. Entretanto, seguindo tendências das produções da TV Globo, a telenovela de Sílvio de Abreu também tem tratado de um tema que, infelizmente, é mais real do que gostaríamos: a dependência do crack, que tem invadido todas as camadas da população.

O drama vivido pelo personagem Danilo, interpretado por Cauã Reymond, é o retrato do que as famílias brasileiras têm vivido de maneira cada vez mais frequente. Pior, por falta de políticas públicas que apontem uma redução considerável do problema, ficam sem saber o que fazer, e muitas vezes reféns de instituições que não têm a mínima estrutura para tratar um dependente da droga.

Na novela, Danilo começou com drogas mais leves, foi internado, fugiu, conheceu o crack, foi morar na rua até que foi encontrado com um aspecto quase irreconhecível. Neste mesmo estado, foi internado contra sua vontade em uma clínica de reabilitação. Infelizmente, a história pouco tem de ficção. Segundo a Diretora Terapêutica de uma das maiores clínicas do país, o personagem da novela representa fielmente o perfil de pessoas que chegam na clínica involuntariamente pela dependência do crack. “Alguns pacientes chegam de uma maneira que, para quem não está habituado a lidar com a situação, dá a impressão que será impossível o tratamento”, diz a psicóloga Cláudia Soares, da Clínica Viva. Para ela, a novela cumpre uma função nobre quando alerta a população que a dependência química é uma doença e que a resistência faz parte do tratamento. “A sociedade precisa abrir os olhos para esta realidade”.

Tratamento. O que à primeira vista pode gerar polêmica, a abordagem da internação involuntária, até o momento é a decisão mais acertada que a família pode tomar. Por quê? Porque neste estágio de dependência, o indivíduo está pouco se importando com sua saúde, com o bem-estar de sua família, com seu moral, com seu futuro, com sua aparência, com suas relações sociais e afetivas, com seu trabalho. Não, ele somente pensa na próxima “pedra”, para, ao fim dela, pensar na próxima, e na próxima. Tudo é justificado – e na novela vemos o pedido por dinheiro e agressões aos familiares – para se obter a droga, ainda que a pessoa não admita esse desejo.

A novela joga na cara da sociedade, principalmente das autoridades ligadas à saúde, a lacuna existente entre a retórica do movimento antimanicomial – que luta pelo fim do tratamento em regime de internação em clínicas psiquiatras – e políticas de saúde que tratem a dependência química com eficiência. Não adianta Direitos Humanos e governos apenas condenarem um sistema que, até o momento, é o único que trata com eficiência, e não oferecerem alternativas efetivas para o tratamento. Pois, por mais que se propaguem o investimento em CAPS-AD e mesmo Clínicas Públicas, estas ainda são medidas paliativas frente à demanda cada vez maior de dependentes em estado grave. Muitos, quando conseguem uma vaga numa clínica pública, ficam por um período em desintoxicação e logo voltam para as ruas, sem nenhuma estrutura ou acompanhamento para que ele se mantenha em abstinência. Ou seja, a recaída é quase certa. E, neste caso, é muito fácil para autoridades justificarem com desculpas como: “nós damos atendimento, eles é que não querem continuar”. Não é assim, porque a pessoa está refém de uma doença que vai além de sua vontade. Por isso, se necessário for, tem de ser abordada com internação, ainda que de forma involuntária.

É óbvio que nem todos os casos de dependência de drogas são para internação, sobretudo contra a vontade do paciente. E é claro que, quando se recorre a uma internação involuntária, existe uma série de procedimentos administrativos, legais, que devem ser respeitados. E por isso as famílias devem pesquisar muito bem a instituição a que confia seu filho, procurar uma clínica profissional especializada. Mas é uma falta de responsabilidade fechar os olhos para o crack e achar que tudo pode ser resolvido pela boa vontade dos dependentes químicos. Só quem convive com os casos de dependência de crack, nas clínicas ou na família, é que sabe disso. Neste sentido, ao mostrar esta realidade que invade os lares brasileiros, a novela Passione presta, com louvor, um enorme serviço à nossa sociedade.

O autor é jornalista e assessor de imprensa da Clínica Terapêutica Viva

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