Pedra no caminho

Em reportagem especial da jornal Folha Universal, a Diretora Terapêutica da Clínica Viva, Cláudia Soares, fala como chegam os pacientes dependentes de crack para internação, na Unidade Clínica de Tratamento em Piedade.

Por Daniel Santini

Crack avança com velocidade no Brasil e recuperação de dependentes continua sendo um desafio. Internados contam como é difícil deixar de fumar as pedras

O consumo de crack disparou no Brasil. A droga, obtida a partir da combinação de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio e amoníaco, conquista mercado com a mesma rapidez com que destrói famílias, aumenta índices de violência e causa um impacto alarmante no sistema de saúde público.

De acordo com o ministério da Saúde, em 5 anos, o consumo mais do que triplicou. De 183 mil usuários no País em 2005, a estimativa passou para 600 mil em 2010. É uma projeção.

O número pode ser bem maior. Há pesquisas em andamento de universidades federais da Bahia e do Rio de Janeiro e novos dados devem ser apresentados no segundo semestre.
O vício avança em diferentes regiões, em áreas rurais ou urbanas, atropelando qualquer diferença social, particularidade ou contexto.

Afeta desde operários da construção de hidrelétricas no rio Madeira, em Rondônia, até cortadores de cana-de-açúcar do interior de São Paulo.

O crack ganha espaço mesmo em mercados então restritos a outras drogas.
Gradualmente sobe os morros cariocas, substituindo a venda de cocaína.

Invade o Polígono da Maconha, no sertão de Pernambuco, provocando, segundo policiais de cidades como Cabrobó e Belém de São Francisco, aumento de crimes violentos.

Aparece como “oxi”, uma mistura ainda mais destrutiva à base de querosene e cal virgem, em estados como Acre, Maranhão, Pará e Piauí.

De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas de 2010, apresentado na semana retrasada pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), o Brasil está, ao lado da Argentina, Equador, Uruguai e Venezuela, entre os países em que o consumo de cocaína e derivados (como o crack) mais aumentou em 2009.

O problema é, primordialmente, de saúde pública. “A dependência é tratável e não uma sentença de morte. Os dependentes devem ser tratados, não presos ou mortos”, ressaltou, na apresentação dos dados, o diretor-executivo do Unodc, Antonio Maria Costa.

Ele cobrou mais respeito aos direitos humanos de quem está com problemas.

Em todo o mundo, em vez de priorizar a recuperação de dependentes, diferentes governos seguem apostando no combate a traficantes.

Gasta-se mais com armas do que com tratamento e prevenção.
No caso do crack, o tratamento é justamente o principal desafio. Recuperar quem se afundou com a droga custa caro, é demorado e difícil.

“Os pacientes chegam sem autoestima, deprimidos, sem memória e sem capacidade de decisão. Estão debilitados fisicamente, com os dentes muito estragados, e sem a capacidade de sonhar.

Muitos não sabem exprimir sentimentos”, relata Cláudia de Oliveira Soares, de 40 anos, diretora terapêutica do Grupo Viva, que reúne clínicas particulares consideradas referências no tratamento.

Dependência química
“O dependente de crack normalmente chega com uma ou mais doenças mentais, como depressão e psicose. As drogas causam lesões cerebrais, provocam desde desarranjos químicos até sequelas. Há danos que são reversíveis e outros não. Nosso trabalho é fazer com que os pacientes voltem a atribuir significados para a vida”, diz a especialista.

Ela viu, em poucos anos, o número de dependentes de crack superar o de outras substâncias como álcool e cocaína. Em 4 anos, os usuários de crack passaram de 30% dos pacientes da clínica para 99%. O tratamento é composto por sessões de terapia e atividades diversas. O apoio da família é importante para a recuperação. Leia ao lado o depoimento de dois pacientes que conseguiram avanços significativos.

“A sociedade precisa conhecer e admitir que a dependência química existe. É uma doença, a pessoa não fica assim por não ter caráter ou por ser fraca. É preciso acabar com o preconceito e tratar quem precisa”, afirma a diretora.

A situação é muito triste, muito sofrida, mas é importante que as pessoas saibam que a recuperação não é impossível. Dá para sair, dá para ter esperança, mesmo sendo tão difícil. O principal problema é que quem fuma sempre quer mais. Com o crack, como costumam dizer, “uma é muito e mil é pouco”. A pessoa fuma até acabar o corpo. E não tem diferença social, não tem nada. A droga pega desde quem está na favela até a alta sociedade. Eu comecei fumando maconha e bebendo com 16 anos. Com uns 23, comecei a usar, primeiro cocaína e depois crack. Minha vida só piorou e eu fazia as pessoas sofrerem. Agora quero ficar limpo, fazer minha família feliz e nunca mais usar. Vou conseguir.

Técnico de inspeção de 28 anos. Internado há 3 meses.

O crack é uma droga traiçoeira. É importante que as pessoas saibam o que é e nunca experimentem. Eu, mesmo sendo professor de biologia, não tinha ideia. Vicia muito rápido. A euforia dura minutos e é muito forte. Depois vem o vazio. Comecei com maconha aos 17 anos, fui para cocaína com 20 anos e, aos 21, quando já lecionava, comecei a chegar drogado no trabalho. Com 24 anos mudei para o litoral do Rio Grande do Sul para tentar me afastar, mas lá conheci o crack. Passei a cometer atos insanos, vendi roupas, celular, tudo. Cheguei a ficar internado, mas saía e caía de novo. O tratamento precisa ser construído. Só isolar as pessoas sem terapia não adianta. O mais difícil é lidar com a culpa quando a realidade volta. Vem solidão e saudade. Hoje estou confiante, mas tenho os pés no chão. Sei que o tratamento continua para sempre.

Professor de biologia de 25 anos no último dia de tratamento de 6 meses.

Fonte: Jornal Folha Universal

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