Medicamentos que causam dependência

Ex-pacientes da Clínica Viva e a Diretora Cláudia Soares falam ao portal G-1, das Organizações Globo, sobre os problemas de se tornar dependente de medicamentos comercializados livremente em farmácias brasileiras.

“Tinha medo só de pensar em ficar sem”, diz socióloga ex-dependente de calmante Roberta, de 35 anos, usou remédio por cinco anos todos os dias.  “Me sinto livre agora”, conta ela, que buscou ajuda médica para deixar vício.

Por Mariana Oliveira

Por cinco anos, a socióloga Roberta Martinho, de 35 anos, tomou calmantes todos os dias. Ela conta que o remédio fazia parte do seu dia a dia. Tinha que tomar para poder trabalhar, para dormir. “Tinha medo só de pensar em ficar sem. Fiquei desanimada de lutar pelas coisas, muito acomodada”, lembra.

O problema que Roberta enfrentou preocupa autoridades na área de saúde em todo o mundo. No Brasil, a situação é um “problema grave”, destaca o Ministério da Saúde. Apesar de a situação já ser realidade há alguns anos, as atenções se voltaram para o problema após várias celebridades, como o cantor Michael Jackson e o ator Heath Ledger, morrerem por conta do abuso de medicamentos.
Roberta, ao contrário daqueles que morreram por causa da dependência, conseguiu se livrar do calmante há cinco meses. “Me sinto livre agora. (…) Me sinto ótima, estou com um corpo ótimo, comendo bem, dormindo melhor. Lidando com os meus sentimentos, lidando comigo de novo, me reconhecendo”, diz ela, que tinha 43 kg quando tomava os remédios e agora tem 54 kg – segundo ela, os calmantes também influenciavam em seu apetite.

A socióloga, que trabalha em São Paulo com artes plásticas, disse que durante seu “vício” muitas vezes misturou os calmantes com grande quantidade de álcool. “Junto com o remédio eu bebia pra caramba. No outro dia tinha amnésia, não lembrava absolutamente nada. Uma mistura meio mortífera. Me sinto uma sobrevivente.”

Roberta conta que tudo começou quando o pai morreu na mesma época em que ela se divorciou do primeiro marido. “Eu fiquei muito triste, estava passando por um momento difícil. Queria ficar no meu canto, não queria falar com ninguém. Uma psiquiatra disse que eu tinha depressão aguda e que ia tomar remédio para sempre.”

Junto com um antidepressivo, veio também o calmante, o qual em pouco tempo ela não conseguiu deixar mais. “Eu era muito viciada. Tomava cem gotas por dia (segundo a bula, a dose máxima recomendada como calmante era de 15 gotas por dia).”

A socióloga percebeu que estava “viciada” quando, segundo ela, não conseguia sair de casa sem o remédio. Ela disse ainda que percebeu ter perdido o prazer de viver. Foi um namorado, o atual marido, quem a despertou para uma nova vida.

“Foi essa relação positiva que me deu vontade de parar. E foi uma mudança total de vida, de valores. Ir a um lugar e não precisar de nada. Eu sou livre agora e eu sinto as coisas. Fazia tempo que eu não sentia. Sinto tristeza e não tenho problema nenhum com isso”, diz.

Desde a decisão de parar até conseguir efetivar a vontade, três meses se passaram. “Procurei um psiquiatra sério e ele me aconselhou a ir parando aos poucos, não tinha medida certa, uma gota por semana, contanto que eu parasse, que fosse uma meta. Sofri um pouco. E pedia ajuda e compreensão das pessoas. Explicava a situação e pedia para que entendessem se eu ficasse irritada.”

Um mês depois de se recuperar da dependência, Roberta começou lançou um blog no qual divide suas experiências com pessoas que tenham deixar o uso abusivo de remédios. “Antes eu não falava disso, dava vergonha porque é uma droga. É uma droga legal, mas é droga. Depois que parei de tomar, comecei a procurar relatos nesse sentido e via gente que não conseguia. Então comecei a escrever e recebo cartinhas de pessoas que buscam ajuda.”

A socióloga diz não temer recaídas. “Tem milhões de formas de controlar a ansiedade. Respiração, leitura, terapia. E eu pretendo engravidar e isso muda muito nossos valores. A depressão é egocêntrica. Já a maternidade é totalmente o oposto.”

Clínica de recuperação
Na clínica de recuperação Grupo Viva, com unidades no interior de São Paulo, Brasília e Itajaí (SC), o número de casos é crescente, segundo a diretora terapêutica, Cláudia Soares.

“O problema vem acontecendo numa crescente. Atendemos até cem pacientes por mês de modo geral, e os casos envolvendo medicamentos estão aumentando.”

Segundo a diretora, o perfil dos pacientes é de pessoas com formação superior e poder aquisitivo elevado. “Essas pessoas acabam tendo mais acesso a medicações. Temos também profissionais da área de medicina, estudantes. Na unidade feminina, a grande maioria é de casos envolvendo as anfetaminas, remédios para emagrecer.”

Cláudia conta que, na maioria dos casos, é necessário internar para que o paciente consiga se livrar da dependência. “Em alguns casos os efeitos físicos na retirada são bastante incômodos, o paciente tem tremedeira”, exemplifica.

A diretora do Grupo Viva conta que um dos pacientes, um médico jovem, ficou dependente do analgésico petidina – a mesma substância que matou o astro Michael Jackson. “Ele (o médico) tinha uma vida de correria, comandava uma equipe de resgate em São Paulo. Tomou para relaxar uma vez e daí sempre tomava quando fica estressado. Até que a dependência se instalou.”

Ela conta que o médico se internou e deixar de usar o remédio. Um ano depois de voltar para casa, porém, teve uma recaída. “A última notícia que tive dele é que tinha perdido tudo. Emprego, casa, carro.”

Cláudia aconselha que o uso de remédios que podem causar dependência seja feito sempre com orientação e supervisão médica. “O brasileiro tem muito disso. Ir na farmácia e comprar uma medicação qualquer sem indicação. Isso é um risco muito grande e a sociedade precisa estar atenta.”

Fonte: G1 – São Paulo

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