Overdose de remédios

Em reportagem realizada pela Folha Universal, a diretora terapêutica da Clínica Viva Cláudia Soares fala que a dependência de medicamentos é uma doença que tem se tornado comum, mas tem tratamento.

Por Andrea Dip

No dia 24 de agosto, quase 2 meses depois da morte de Michael Jackson, a conclusão das investigações sobre o que provocou a parada cardíaca no rei do pop foi finalmente divulgada: homicídio culposo (sem intenção se matar). O resultado da autópsia aumenta a suspeita contra Conrad Murray, médico particular do cantor, que, em depoimento aos investigadores, afirmou que estava tratando, todas as noites, um problema de insônia de seu paciente com o anestésico Propofol. Policiais que investigam a morte de Michael Jackson, acreditam que ele até usava contas falsas de e-mail para a compra ilegal de medicamentos. Coincidentemente, também em agosto, o mundo lembrou os 32 anos da morte do cantor norte-americano Elvis Presley. Conhecido como rei do rock, ele tinha muita coisa em comum com Michael Jackson, além da fama.

O que mais impressiona é a semelhança da morte desses dois astros, ambas envolvendo o uso abusivo de medicamentos. Elvis perdeu o controle sobre o vício por remédios a partir dos anos 70, quando o médico pessoal dele receitava altas doses de calmantes e analgésicos para a dor, o que culminou na parada cardíaca que o levou à morte, em 1977.

Recentemente, a cantora Kelly Osbourne, de 24 anos, filha do roqueiro Ozzy Osbourne confessou ser viciada em remédios. Em seu livro autobiográfico “Fierce”, Kelly conta como se tornou dependente do analgésico Vicodin, aos 13 anos. Após tomar o medicamento, receitado pelo médico depois de cirurgia para a retirada das amídalas, a cantora percebeu que ficava mais relaxada e feliz. Aos 16 anos, passou a comprar Vicodin de um
amigo e foi aumentando as doses até os pais dela encontrarem 500 comprimidos em seu quarto e a mandarem para uma clínica de reabilitação. “Logo, eu estava tomando 50 comprimidos por dia. A maioria das pessoas tem overdose se toma dez”, conta, em seu livro.

Mas o uso compulsivo e até o vício em medicamentos não é um problema restrito às celebridades. Afinal, o que leva ídolos e pessoas comuns a virarem dependentes químicos de remédios, aparentemente inofensivos, como analgésicos e calmantes? Para a psicóloga Cláudia Soares, que trabalha há 16 anos com dependentes de álcool e drogas, a cultura da automedicação e dos “remedinhos por indicação” podem ser o primeiro passo (veja entrevista na pág. 10). Mas há outro fator importante: o medo da dor. “Às vezes, o médico receita um analgésico para uma dor causada por um acidente, por exemplo, e o paciente não consegue mais parar de tomar, porque tem medo de sentir aquilo de novo”, diz.

Cláudia explica ainda que a busca pela solução rápida para a depressão e o estresse, com calmantes e estimulantes, e para ter o corpo perfeito, por meio de anfetaminas, também leva à dependência química. “O perfil do dependente, para drogas lícitas ou ilícitas é o mesmo: usa algum tipo de química para evitar sintomas ou aliviá-los”, define Cláudia.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase metade dos remédios consumidos no mundo é utilizada de maneira irracional. Atualmente, existem mais de 20 mil medicamentos disponíveis no mercado e com apenas 316 deles a humanidade poderia tratar as doenças mais importantes. Os números de um estudo da Fundação Oswaldo Cruz também são assustadores: 30% das 80 mil mortes anuais por intoxicação no Brasil são causadas pelo uso indevido de remédios. A situação é ainda mais grave nos Estados Unidos, onde 1 milhão de pessoas são intoxicadas por remédios todo ano.

Tatiana Mourão, professora do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que há dois grupos entre os consumidores irresponsáveis de medicamentos: “Há os hipocondríacos, que se automedicam com remédios de venda livre, e há os químico-dependentes, como Michael Jackson. Esses casos são os mais sérios, porque o uso indiscriminado desses remédios pode causar transtornos mentais irreversíveis, convulsões e crises de abstinência.”

Do outro lado, está a indústria farmacêutica (veja pág. 11), que, em 2008, teria faturado US$ 406 bilhões (R$ 761 bilhões), segundo a revista alemã “Focus”. “É uma grande roda da economia, por isso, há o apelo para que as pessoas consumam remédios”, aponta Cláudia. “E a população não tem noção que faz parte dessa engrenagem. Se alguém vai a uma consulta e sai sem um remédio, difama o médico e nunca mais volta.”

Fonte: Jornal Folha Universal

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