Fundo do poço

Psicóloga da Clínica Viva é fonte de informação para reportagem sobre alcoolismo entre mulheres, realizada pelo jornal Folha Universal (Grupo Record), que também ouviu pacientes em fase final de tratamento.

Por Andrea Dip e Guilherme Bryan

Enquanto contava sua história, as mãos de N.P., de 29 anos, tremiam. Nos momentos mais difíceis, relatados de dentro de uma clínica de reabilitação para mulheres alcoólatras no interior de São Paulo, seus olhos enchiam de lágrimas e a garganta engolia o passado em seco.

“Nunca bebi antes da minha separação”, diz ao se sentar no banco de madeira, no jardim da clínica. “Me casei com 23 anos e me separei aos 25, com um filho de 7 meses. Foi aí que tudo começou.” Para tentar fugir da depressão e da angústia do fim do casamento, N.P. começou a beber sozinha, em casa, isolada dos amigos e parentes. “Larguei meu filho com meus pais, saí do emprego e tranquei a faculdade de direito”, conta.

“Eu comprava um pacote de cerveja e tomava de uma vez só. Aí, comecei a ficar inchada, feia e a me isolar cada vez mais”. N.P. chegou a ser internada duas vezes com depressão, o mesmo número de tentativas de suicídio. “Sorte que fui encontrada rapidamente”, diz.

Ela está na terceira internação, mas está feliz. “Faz 3 meses que estou limpa. O que quero agora, mais do que tudo, é voltar a morar com meus pais e, principalmente, ficar com o meu filho (hoje com 5 anos)”.

Enquanto você lê esta reportagem, centenas de mulheres estão bebendo além da conta, assim como N.P. fazia, e nem todas terão um final feliz. Segundo dados do Ministério da Saúde, quase 16 mil mulheres morreram por uso abusivo de álcool no País entre 2000 e 2006 – número que tem aumentado a cada ano.

Hoje, mulheres e homens bebem a mesma quantidade em “binge”, termo usado quando a quantidade de álcool ingerida aumenta os riscos de acidentes, dependência e agravamento de doenças. O perigo está no fato de que além de sofrer mais discriminação, correr mais riscos de doenças e de se colocar em perigo por serem mais vulneráveis a agressões sexuais, elas metabolizam o álcool de forma diferente.

Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (Instituto Nacional para o Abuso do Álcool e Alcoolismo), dos Estados Unidos, o organismo feminino absorve 30% mais álcool que o masculino, porque as mulheres têm mais gordura e menos água no corpo.

Além disso, eles possuem a enzima desidrogenase – responsável pela destruição do álcool, o que ajuda a preservar o fígado – numa quantidade duas vezes maior.

Por ter menos enzimas para metabolizar o álcool lançado na corrente sanguínea, a mulher embriaga-se mais, mesmo ingerindo a mesma quantidade que o homem. De acordo com um estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, em 2001 havia uma mulher alcoólatra para cada dois ou três homens dependentes nos 107 maiores municípios do País.

Mas, por que elas estão bebendo tanto? Segundo a psiquiatra Mônica Zilberman, especialista em saúde mental da mulher, por vários fatores, separados por faixas de idade (veja os perfis nesta página). “A entrada da mulher no mercado de trabalho facilitou o acesso às bebidas alcoólicas.

Além disso, a pressão é tão grande (dupla jornada, filhos, busca pelo corpo ideal…) que o álcool acaba sendo uma forma de automedicação para a baixa auto-estima, a ansiedade e a depressão.”

Mônica frisa que as meninas estão começando a beber cada vez mais e mais cedo, o que pode virar alcoolismo no caso das que tem pré-disposição. E um novo transtorno começa a se desenhar entre as mais jovens: a drunkorexia, anorexia associada ao excesso de bebida alcoólica utilizada com anfetaminas para emagrecer.

Mas o maior número de mulheres alcoólatras ainda está entre as que, depois de anos cuidando da família, se descobrem solitárias, com os filhos fora de casa, viúvas, separadas ou sem a afetividade do parceiro. “É uma forma de lidar com a perda do papel social”, diz Mônica.

“Esses casos são os mais difíceis de ser detectados e, normalmente, as mulheres chegam ao fundo do poço”, completa Cristina Queiroz Lacerda, coordenadora da unidade feminina da Clínica Viva, para alcoólatras e dependentes químicos, de São Paulo.

Foi o que aconteceu com E.S., de 61 anos, que atualmente está internada na mesma clínica que N.P. se trata. “Minha casa vivia cheia. Há 10 anos, com a morte do meu marido, comecei a ter pânico de sair de casa. Aí, meus filhos ficaram independentes. Me vi sozinha e comecei a beber”, conta.

“Primeiro bebia em eventos, com os amigos. Depois, comecei a beber sozinha em casa e guardava as garrafas vazias dentro de panelas, enroladas em toalhas”, lembra. Ela resolveu se tratar depois que o filho saiu de casa. “Eles procuravam tratamentos e eu sempre inventava uma desculpa. Até que meu filho me pegou caída no chão da cozinha. Foi a gota d’água.”

Depressão

Cristina explica que, diferente dos homens, 95% das mulheres bebem por depressão, bipolaridade ou outros transtornos associados e que, geralmente, utilizam antidepressivos, calmantes ou anfetaminas, o que piora o quadro.

“As mulheres sentem muita vergonha de assumir. Isso explica porque a procura por tratamento, mesmo de mulheres com nível educacional e socioeconômico elevado, é tão grande no serviço público, onde elas se sentem mais protegidas do julgamento alheio”, diz Mônica.

Dados da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo comprovam a teoria: entre 2004 e 2006, cresceu 78% o número de alcoólatras atendidas pelos Centros de Atenção Psicossocial, onde, anualmente, cerca de 3 mil mulheres procuram ajuda para deixar o vício.

Mas se a dependência entre o público feminino é devastadora, a cura é mais rápida. Segundo a tese de doutorado da coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química, Patrícia Hochgraf, a mulher responde muito melhor a tratamentos específicos.

A pesquisa indica que com um tratamento exclusivamente feminino, 80% das mulheres continuam o procedimento após 6 meses do início e 50% após 1 ano. Já nos tratamentos convencionais, mistos, a porcentagem cai para 15% após 1 ano. “O papel da família é convencê-las de que essa é uma doença, da qual não devem se envergonhar”, diz Mônica.

Fonte: Jornal Folha Universal

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *