Alcoolismo entre mulheres

Reportagem da Revista Carta Capital ouviu uma de nossas psicólogas em sua reportagem com chamada de capa sobre alcoolismo entre mulheres. Ela falou sobre os sintomas da doença e também sobre necessidade de tratamento.Por Cynara Menezes

Saúde – Como efeito perverso da emancipação, as mulheres começam a se igualar aos homens na hora de beber. No Brasil, quanto mais jovens, mais se aproximam da média masculina.

De férias na ilha de santa Lúcia, neste verão, a cantora britânica Amy Winehouse tem um copo na mão. Ou uma garrafa. Ou ambos. Os sites de celebridades alardeiam que a magricela Amy, dona de uma voz potente ao estilo das grandes damas americanas do jazz, está entornando uma garrafa de vodca por dia durante sua passagem pelo paraíso caribenho. O público sedento de escândalos solta um “oh!”, chocado. Mas seria de fato Amy uma exceção à regra ou a ponta visível de uma tendência?

Não é preciso forçar a memória para recordar outras celebridades jovens e femininas, fotografadas embriagadas e presas dirigindo depois de terem tomado todas. Da atriz americana Lindsay Lohan à também inglesa Lily Allen, passando pela patricinha Paris Hílton.

E não é exclusividade delas. Um estudo feito no Brasil mostra que também aqui as meninas estão bebendo para valer, quase tanto e com tanta frequência quanto os meninos. Sintomaticamente, começam a surgir versões exclusivas para moças dos centros de recuperação de que tala Amy em seu famoso hit, Rehab.

“A prevalência do consumo de bebidas alcoólicas na população feminina nunca esteve tão perto da encontrada na população masculina como acontece agora entre nossos jovens” concluí o estudo, uma análise por gênero e idade a partir da Pesquisa Nacional sobre o Consumo de Bebidas Alcoólicas (PNBA), realizada pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) em parceria com a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O estudo é o primeiro a mostrar um panorama real do consumo de bebidas alcoólicas por homens e mulheres nas díferentes faixas etárias, e foi feito com base nas entrevistas realizadas pela PNBA entre 2005 e 2006 em 143 municípios brasileiros. Foram ouvidas 2.522 pessoas acima de 14 anos, além de 485 entrevistas extras com adolescentes de 14 a 17 anos. A pesquisa, recentemente finalizada, representa um retrato de como toda a população do País bebe, com ênfase nos jovens.

Ao longo da história, as mulheres sempre beberam menos que os homens. Mas as coisas estão mudando de forma acelerada entre a população dos 12 aos 17 anos. Como um efeito perverso da emancipação feminina, as garotas passaram a querer se igualar aos garotos também nas bebedeiras. Quanto mais jovens, dizem os pesquisadores, mais as mulheres se aproximam dos homens no consumo de álcool. “A prevalência de bebedores na adolescência é de pouco mais de um terço para homens e de um terço para mulheres”, anotaram.

Por que as mulheres bebem? Em termos psicológicos, por razões bem diferentes dos homens. Enquanto eles buscam no álcool, em geral, uma forma de se divertir e relaxar, elas buscam aplacar sentimentos de tristeza, frustração, solidão, baixa autoestima e ansiedade. Entre as jovens herdeiras da geração que liberou a mulher, a necessidade de copiar o comportamento masculino se destaca.

“Elas sentem algo do tipo: ‘Eu também posso, eu também sei jogar esse jogo, não sou menininha fragilzinha'”, explica a psiquiatra Mónica Zilberman, uma das autoras do estudo da Unifesp. “Isto vem junto com a ideia de liberdade: ‘Os meninos podem ficar com um monte de meninas. Pois eu também, sem compromisso e sem ficar triste depois’. O álcool entra como ajuda para ‘não ficar triste depois’, porque naturalmente as meninas tendem, com algumas exceções, a se envolver, se apaixonar.”

Na terra de Amy Winehouse, esse fenômeno ganhou até nome: “ladette generation” algo como geração “machinha” Trata-se da versão feminina da cultura lad (“machinho”), surgida com o boom na música pop britânica nos anos 1990 e representada por rapazes malcomportados, briguentos e beberrões. As meninas entraram com tudo na nova onda. Resultado: hoje, na Inglaterra, as adolescentes já bebem mais que os garotos.

Artigos na imprensa inglesa falam do arremedo do estilo de vida masculino pelas garotas, o que inclui vestir-se igual a eles, com aquelas calças jeans superbaixas popularizadas pelos rappers, e praticar atos de vandalismo e violência que as autoridades atribuem ao consumo excessivo de álcool. Um informe do governo britânico publicado em dezembro diz que as queixas nas delegacias envolvendo garotas entre 10 e 17 anos cresceu 25% nos últimos três anos. As meninas também estão formando gangues e andando armadas com facas.

Martin Plant, professor de estudos sobre dependência da Universidade West of England, foi um dos primeiros especialistas a alertar para o fato de que as meninas inglesas estão bebendo cada vez mais, e até cair. No livro Binge Britam (Oxford Press), escrito em parceria com sua mulher, Moira, Plant sustenta que o alcoolismo na adolescência já é uma epidemia no Reino Unido, Beber em “binge”, que significa consumir álcool com a intenção deliberada de se embriagar, virou o esporte nacional.

Especificamente entre as meninas, o quadro é assustador. De 2001 para cá, houve um aumento de 25% no número de garotas abaixo de 14 anos internadas em hospitais Com problemas mentais decorrentes do álcool e há informes que falam de doenças de fígado aos 16. Segundo o British Medical Journal, um terço das garotas britânicas acima dos 14 bebe toda semana e um quarto delas provou drogas. Algumas meninas relataram a facilidade com que conseguem comprar ambos, bebida e drogas.

A Inglaterra é o país de maior consumo de álcool na Europa – bebem três vezes mais, por exemplo, que os italianos. Mas as garotas também estão derrubando rapazes nas mesas dos bares de países do Leste Europeu. Como os publicitários não são bobos nem nada – só no Brasil a publicidade de bebidas rende às agências cerca de 600 milhões de reais por ano -, rapidamente a indústria do álcool tratou de se movimentar.

A venda desde o inicio do ano passado na Rússia, um dos países com o maior índice de alcoólatras no mundo, a vodca Damskaya (damas, em russo) tem como público-alvo a mulher. No anúncio de lançamento, a garrafa em tons de violeta foi fotografada com um vestido esvoaçante à Marilyn Monroe, revelando o rótulo em lugar de pernas. E o slogan: “Entre nós, garotas…”

Em se tratando da Rússia, onde se acredita que o alcoolismo atinja 10% da população, a tentativa de angariar mais beberrões entre o sexo oposto preocupa as autoridades. Psicólogo de um centro de reabilitação em Moscou, Yuri Sorokin declarou à agência Reuters que 60% dos que buscam tratamento para alcoolismo hoje na capital russa são mulheres, inclusive esposas de milionários. “O alcoolismo feminino é um problema enorme na Rússia, tão grande quanto oculto”, disse Sorokin.

Nos EUA, o perfil do alcoolismo entre as mulheres foi rejuvenescendo ao longo dos últimos vinte anos. Antes, a alcoólatra era a mulher de meia-idade que punha “um copo de licor na torta e outro para dentro”, como definiam os conterrâneos de Lillian Hellman, a escritora que emparelhou com o marido, Dashiell Hammett, no talento e nas bebedeiras homéricas. A me-nopausa, aliás, é até hoje uma das causas do alcoolismo feminino.

Depois, com a forte entrada da mulher no mercado de trabalho nos anos yuppies, o feitor preponderante para o alcoolismo passou a ser o estresse e a pressão na profissão, entre mulheres com 30 anos ou mais. Era a “geração Cosmopolitan”, nome de s revista e de drinque, que contínua 2 em alta. Estão ai as chiquérrimas moças do seriado Sex and The City que não nos deixam mentir, sempre reunidas à mesa de um bar de Manhattan em torno de cosmopolitans, um mix de vodca, limão, cointreau e suco de cranberry.

Atualmente, é a porcentagem de garotas bebendo que está em ascensão, com o primeiro trago tomado aos 13 anos ou menos. Há quatro anos, a Associação Médica Americana (AMA) denunciou a indústria por atrair as consumidoras jovens com os chamados girlie drinfcs, as bebidas do tipo ice, as mais consumidas pelas meninas por seu sabor adocicado – um terço de todas as garotas do país a partir dos 12 anos experimentou alguma delas. A AMA contra-atacou com pôsteres que mostram os danos causados pelo álcool à saúde da mulher. Entre nós, a bebida mais consumida pelas garotas a partir dos 14 anos é a cerveja, em virtude do preço. As meninas brasileiras também bebem pinga e seus derivados, como a caipirinha, mas preferem mesmo é a loira gelada.

Que ninguém se espan te se daqui a pouco surgirem anúncios com garotòes sarados de sunga pas sando por entre as mesas de um bar lotado de moças bebendo. Especialistas falam de dois perfis de alcoólatras femininas no Brasil.

No primeiro grupo estão mulheres acima dos 40 anos que já viram os filhos crescerem e tiveram casamentos desfeitos, e, no segundo, as mais jovens, que consomem álcool associado a outras drogas e se esforçam para controlar o pesa Nas mais velhas, em geral, o consumo de álcool está associado ao uso de calmantes como Lexotan, Valium, Frontal e Rivotril. Nas jovens, o álcool pode facilitar o início do consumo de outras substâncias, incluindo inalantes, anfetaminas, ecstasy, maconha e, principalmente, cocaína.

“Em nossa clínica, quase todos os relatos de jovens apontam para o álcool servindo como porta de entrada para outras drogas”, diz a coordenadora terapêutica do grupo Viva, Maria Cristina de Queiroz. A clínica do grupo no Embu, na região metropolitana de São Paulo, é uma das três existentes atualmente no País, que tratam apenas de dependência química feminina, com ênfase no alcoolismo. Existem ainda a clínica Chabad, em Atibaia, e o Instituto Lumina, em Salto, também no interior de São Paulo.

Embora, como os homens, as mulheres demorem a se conscientizar do vício, as alterações de comportamento são visíveis. “Por causa de variações na organização do cérebro, a mulher fica bêbada mais rápido e com menos bebida do que o homem. E o álcool, por ser uma droga lícita, está facilmente ao alcance”, diz a psicóloga.

No site da clínica, após serem reabilitadas, algumas garotas contam suas experiências. “Meu nome é S. Tenho 17 anos e comecei a fazer uso de drogas e álcool aos 13, depois maconha, crack e cocaína” diz uma delas. “No início usava cigarro, álcool e maconha, até que um dia conheci a cocaína e, durante vários anos, usei diariamente. A cocaína era minha companheira, sem ela eu nada fazia”, narra M.D., de 25 anos, dependente desde os 14.

Os Alcoólicos Anônimos não fazem estatísticas, mas na sede do grupo em Brasília encontro M., 30 anos, com uma história semelhante. Começou a beber aos 20 anos e está há quatro sóbria. Instrumentadora cirúrgica em um hospital, chupava bolinhas de algodão embebidas em álcool durante o trabalho para conseguir aguentar até a hora de ir para o bar. Pediu demissão quando descobriu ter 9 mil reais no fundo de garantia que podia usar para beber mais.

“Minha amnésia alcoólica era tanta que só percebi que tinha saído do emprego quando o gerente do banco ligou dizendo que meu salário não tinha sido depositado”, conta. No começo, M. bebia uísque com amigos em lugares elegantes. No final, bebia cachaça com qualquer um em botecos e passou a usar também cocaína. Ela aponta uma razão, além da depressão, para as meninas beberem: a camaradagem. “Quem não bebe é malvisto nos grupos. Incomoda quase tanto quanto quem bebe muito”, diz.

E há, claro, a publicidade, que já descobriu nos adolescentes um filão lucrativo. “Nos EUA, a propaganda de bebida é claramente direcionada ao mercado juvenil. Uma das formas mais comuns de promover bebidas entre os jovens é com os ‘alcopops’ (refrigerantes alcoólicos), que são bebidas destiladas com sabor, normalmente utilizando vodca em sua fórmula, mas também rum e até uísque”, diz Bruce Simons-Morton, chefe do departamento de pesquisa e prevenção do Instituto Nacional de Saúde (NIH) americano.

Morton participou de um estudo promovido pelolEBSC (Health Behavior on School-Aged Children), uma instituição ligada à Organização Mundial da Saúde, que avaliou o uso de álcool entre adolescentes a partir dos 15 anos em 24 países. A conclusão foi bem parecida com a análise feita no Brasil: o consumo de álcool permanece mais alto entre os garotos do que entre as garotas, mas a diferença vem caindo a cada ano, e as meninas já estão se equiparando aos meninos em muitos lugares.

De acordo com o pesquisador, a política ndfe-americana para tratar do assunto é mais punitiva, com sanções criminais aos adolescentes que são flagrados tanto em posse como no uso de álcool. Já o Canadá e os países europeus optaram por seguir o modelo de redução de danos, com foco em punir os que são pegos dirigindo embriagados em vez de criminalizar o uso casual da bebida.

No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê punição de dois a quatro anos de detenção mais multa a quem vende bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. No entanto, estima-se que 13% dos adolescentes possuam um padrão alto de consumo de álcool, ou seja, bebem uma vez por semana ou mais.

Para os especialistas em dependência, a melhor forma de prevenção entre as meninas seria mostrar que há um fator ainda mais preocupante nessa adesão precoce ao alcoolismo. Biologicamente, não há igualdade alguma entre os sexos no que diz respeito à tolerância ao álcool. A mulher é frágil, “fraca para a bebida”, como se costumava dizer. Como possui menor quantidade de água corporal, a concentração sanguínea de álcool é maior nas mulheres do que nos homens. Elas também possuem naturalmente uma menor quantidade da enzima chamada álcool-desidrogenase no estômago, o que faz com que o álcool seja menos metabolizado nesse órgão.

Para piorar, à medida que a mulher continua bebendo, o organismo vai produzindo quantidades cada vez menores dessa enzima e concentrando progressivamente mais álcool no sangue mesmo que não aumente a quantidade de bebida. Isso significa que todos os problemas físicos associados ao álcool nos seres humanos aparecem mais cedo e costumam ser mais graves nas mulheres: gastrite, úlcera gástrica, esteatose (“fígado gordo”) e cirrose hepática, problemas cardíacos, neurológicos e cognitivos (de atenção e memória, inclusive demência).

Fala-se ainda em “drunkorexia”, garotas esquálidas, sem comida no estômago, mas com um copo na mão. Imagem de fácil acesso quando se pensa em Amy cantando para as meninas do mundo, com seu vozeirão de diva, nada haver a ser ensinado na escola ou nas clínicas que não se possa aprender em um balcão de bar.

Fonte: Carta Capital (Edição 536| 11 de março de 2009)

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