Muito além de querer ou não se tratar

A psicóloga da UAPS de Franca, Maria Luisa, fala sobre o processo da procura por auxílio quando o assunto é dependência química, além do comportamento de familiares e usuários em relação a como encaram e aceitam passar por tratamento especializado.
O artigo foi publicado na Revista O Lokau.

Dependência química é um fenômeno biopsicossocial e existe um amplo espectro de atuações possíveis no tratamento da mesma. Portanto se faz necessária uma avaliação cuidadosa que identifique a natureza, os problemas e os objetivos apropriados e possíveis no tratamento, concernentes a cada tipo de pessoa, almejando atingir um resultado satisfatório numa relação de ajuda.

Uma relação de ajuda pode ser definida como uma situação em que uma das partes procura promover na outra o desenvolvimento, a maturidade, um adequado funcionamento e uma maior capacidade de enfrentar a vida. Mas é muito importante que seja estabelecida também pela própria pessoa que está com um problema ou dificuldade, e não apenas pelo profissional ou requisitante do tratamento, pois é a maneira de responsabilizá-la pela própria vida.

Muitas pessoas que chegam até as Unidades de Atendimento Psicossocial do Grupo Viva não querem se tratar. São aquelas encaminhadas por familiares, amigos, juízes, patrões. Normalmente, mesmo aquela pessoa que nos procura por vontade própria, inicia o tratamento ainda muito confusa, ambivalente: quer e não quer se tratar. O uso de álcool e/ou drogas é um comportamento que gera prazeres. O que as pessoas querem é evitar as conseqüências prejudiciais desse uso. A ambivalência é, portanto, uma característica relevante dessas pessoas e não “malandragem”, “falta de caráter” ou “apenas manipulação”, como comumente é rotulada.

Mais do que lidar com ambivalência, tentar promover mudanças, promover auto-eficácia na resolução de problemas e dificuldades, nosso objetivo é estar com a pessoa, poder ouvi-la; colocar-se no lugar dela; poder compreender seus medos, desejos, angústias e atitudes; evitando julgamentos e juízos. Julgamentos fazem parte da vida de todo ser humano, nas mais variadas esferas; contudo não favorecem o desenvolvimento das pessoas e, portanto, não são apropriados quando o que se busca é ajudar alguém.

Manter uma relação livre de qualquer juízo de valor pode permitir à própria pessoa reconhecer e acertar suas responsabilidades, uma vez que não terá que acionar defesas para enfrentar julgamentos. Isso tudo pode favorecer muito a adesão e a continuidade ao tratamento e, dessa forma, talvez a relação de ajuda possa de fato ser estabelecida.

Fonte: Psicóloga Maria Luisa, da UAPS de Franca à Revista O Lokau.

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