Saúde mental e sua relação com o estupro

Além de toda a polêmica envolvendo os aspectos legais, trazidos por meio da imprensa depois do estupro coletivo sofrido por uma jovem no Rio de Janeiro, o caso levanta outras questões fundamentais que devem ser debatidas – social, cultural, psicológica, saúde mental -, afim de que se possa combater a cultura do estupro.

Afinal, o estupro é motivado por transtornos sexuais? Segundo psicólogos e psiquiatras, obrigar uma pessoa a fazer sexo sem seu consentimento pode ter ligação com tais distúrbios, mas a complexidade vai muito além. Está fatalmente presente a saúde mental do estuprador e questões sociais, já que vivemos em uma sociedade que empodera o homem e objetifica a mulher. A cultura dominante ainda é de que a mulher deve obedecer ao homem, o mercado de trabalho paga mais para homens, propagandas de TV ainda colocam a mulher como objeto (cerveja) ou como dona de casa (produtos de limpeza), em boa parte das doutrinas religiosas, a mulher tem papel coadjuvante.

É fácil ver pessoas que associam mulheres em cargos de chefias não por habilidades ou competências, mas por seu perfil físico e padrões de beleza. Sua capacidade, vez ou outra, é colocada em cheque.

A falta de representatividade de mulheres em cargos importantes na vida pública é o puro exemplo de uma sociedade que subjuga a mulher. Por outro lado, em acidentes de trânsito que envolvem mulheres, muitos soltam aquela expressão: “claro, é mulher no volante”. Da mesma forma, na própria política, quando as coisas não vão bem, a sociedade logo atribui ao fato de uma gestora pública ser mulher, para justificar possíveis erros administrativos.

Estes valores são transmitidos desde a infância, quando meninos são ensinados a terem poder (ganham carrinhos, bonecos de super-herois), enquanto meninas são educadas a servir (ganham jogo de panelas de brinquedo, casinhas, bonecas, simulando os futuros bebês).

Toda esta tradição machista está na raiz na cultura do estupro, que nos faz culpar a vítima e não o agressor: ah, mas ela pediu para ser estuprada com esta roupa; ela sabia o que estava fazendo quando foi na casa dele; ela saiu aquela hora, só podia dar nisso.

Por aí se vê que a questão é menos sexual do que cultural. Segundo especialistas, quando o homem estupra, sua intenção é agredir, ferir humilhar, porque, de alguma forma se sentiu ameaçado por mulheres.

A mente do estuprador

São diversas as causas que desencadeiam a ação de estupro: estresse, conflitos familiares, desemprego, imaturidade, além de transtornos ligados à saúde mental. Mas, para muitos profissionais o estupro não é um ato sexual, mas sim um ataque. Para o estuprador, o pênis não representa um instrumento de prazer, mas sim um objeto de poder e dominação.

Estuprador dentro de casa

Por outro lado, de acordo com advogados que atendem na assistência jurídica, embora casos como o do estupro coletivo no Rio ganhem proporção nacional, o perigo está mais próximo do que se imagina. A maior parte de denúncias de estupro envolve pessoas que estão perto da vítima mais jovem, como pais, padrastos, tios e outros parentes e amigos da família.

Violência contra a mulher

O estupro é apenas uma entre as várias formas de agressão cometidas pelos homens. Psiquiatras citam a violência psicológica, a física, financeira, desrespeito por direito das mulheres e discriminação como problemas tão graves da sociedade a serem combatidos. Tais problemas são potencializados porque quase nunca são denunciados e quando são, normalmente acontece o que ocorreu no Rio, a violentada passa de vítima a culpada pelo julgamento social.

Não é admissível que casos como os do Rio de Janeiro continuem tendo respaldo da justiça, da sociedade machista e também de mulheres que não se veem como vítimas. A cultura do estupro precisa ser combatida por toda a sociedade, com todas as forças possíveis.

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