Ex-dependente de crack faz sucesso como modelo

 

Expulso de casa por vender os pertences da família para sustentar a dependência de crack, Adriano Lugoli morou nas ruas por dois anos. Com 1,80 metro de altura e pesando apenas 60 quilos, Adriano Lugoli era chamado de feio pelas pessoas. “Eu estava feio de dar medo. As pessoas diziam ‘cara, como você é feio, você é muito feio’. Eu era pele e osso, parecia uma caveira”, lembra Lugoli. O que talvez ninguém imaginava era que aquele rapaz se recuperaria e se transformaria em modelo – de superação e de passarela.

O envolvimento com as drogas

Lugoli nasceu e cresceu em Uberlândia (MG). Aos 20 anos, o uso de álcool, cigarro e maconha era comum. Depois, em festas raves, conheceu o ecstasy. O crack foi oferecido por uma moradora de rua. “Um dia, estava bêbado e uma mendiga traficante ofereceu crack para mim e para o meu amigo. Eu fui na onda. Experimentei e vi que era diferente”, diz. Apesar de lembrar que a droga não o deixava tão alegre quanto as outras que experimentara, Lugoli voltou a usá-la repetidas vezes. “Trabalhava com telemarketing na época e, assim que recebia o salário, falava ‘vou pegar só R$ 50’e, quando via, já tinha gastado R$ 300. Daí, foi ficando pior e eu chegava a gastar meu salário todo.”

Sem dinheiro para comprar mais pedras de crack, Lugoli começou a vender seus pertences. A gota d’água para os familiares foi quando, para comprar mais pedras de crack, Lugoli vendeu o presente que o irmão havia comprado de aniversário para a mãe. “Era um sofá novo, um DVD e uma televisão de 29 polegadas, já que a gente tinha a mesma televisão desde criança. Eu peguei o DVD, que era a única coisa que dava para carregar, e entreguei para o traficante”, diz. “Quando voltei para casa para pedir perdão, chamei, chamei, mas não abriram a porta. Foi aí que virei mendigo.”

A partir daí, ele começou a pedir dinheiro nas ruas. “Assim que inteirava R$ 5, ia para a boca de fumo. Não conseguia inteirar nem R$ 50. Se alguém me desse R$ 5 eu voltava lá e fumava”, diz. “Para me alimentar, pegava 15 centavos e comprava uma pipoquinha.”

A família nunca desistiu

Dormindo ao relento, com roupas furadas, sem sapatos e sem tomar banho por dias seguidos, Lugoli ainda recebia a visita da mãe. “De vez em quando eu ia dormir em um bar e ela levava comida para mim em uma vasilha de sorvete. Ela diz que tem trauma até hoje daquela vasilha”, diz.

A família tentou buscar várias soluções para tirar o filho das ruas – alugou quartos em pensões e chegou até a tentar trancá-lo em casa, mas Lugoli sempre voltava a usar drogas. Foram dois anos dormindo no chão e em casas abandonadas, totalmente entregue ao crack. Ele também foi internado diversas vezes, mas sempre fugia as instituições.

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A família sugeriu então que ele fosse para uma clínica de internação longe de casa, em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal. As idas e vindas, entretanto, continuaram. Em uma das ocasiões em que abandonou a clínica e voltou para Uberlândia, a mãe o encontrou pedindo comida na porta de uma casa. “Na hora em que eu estava colocando macarrão dentro de um pão, minha mãe passou na rua”, conta. “Ela ficou muito triste, disse que as orações dela haviam sido em vão. A mala que eu tinha trazido já tinha entregue para o traficante. Eu não tinha mais nada.”

Arrependido, ele implorou mais uma vez por ajuda à mãe. A clínica de Luziânia, no entanto, não queria mais aceitá-lo. Somente após muita insistência da família, os diretores decidiram recebê-lo, sob a condição de que ele ficasse internado seis meses ininterruptos.

Nova vida

Após deixar a instituição, Lugoli conheceu uma jovem, com quem se casou. Quando a mulher engravidou, o casal fez um ensaio fotográfico e as fotos foram postadas nas redes sociais. Os amigos, surpresos com a fotogenia de Lugoli, o incentivaram a procurar uma agência de modelos.

“Nunca gostei de tirar foto, nunca me achei bonito. Na escola, eu tinha os piores apelidos. Tenho uma etnia muito forte, muito bem definida, sou ‘africano’ mesmo, mas existe preconceito. Nunca pensei que poderia ser modelo”, disse. “Mas, na agência, me disseram exatamente o contrário, que minha etnia forte iria me ajudar a fazer muita propaganda. Aquilo que eu achava que era ruim foi a marca que me ajudou a fazer várias propagandas.”

O primeiro comercial foi em 2009, com a participação de Ronaldo Fenômeno. “Daí para frente fiz um catálogo de uniformes, fiz uma propaganda do Disque-Racismo da Secretaria de Igualdade Racial, que foi para todos os ônibus de Brasília. Comecei com figuração e fiz vários comerciais, várias propagandas de revista. Também gravei uma participação no clipe da Ellen Oléria e desfilei na Capital Fashion Week”, diz.

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Atualmente, Lugoli trabalha como despachante, mas sonha em crescer na carreira de modelo e trabalhar como ator. Para manter a forma, ele conta que malha de domingo a domingo. Divorciado, o modelo conta que os dois filhos, de 3 e 6 anos, são os “alicerces” de sua vida. “Eles são a certeza de que não vou regredir”, diz.

Lugoli diz que já deu palestras contando sua história e que, ao final delas, muitas pessoas chegam para abraçá-lo e conversar com ele. “Tem gente que fica feliz em saber que tem solução para o tio, para o filho. Tem muita gente perdida sem saber o que fazer e não acredita que tenha saída, já que o próprio familiar também fica doente com essa história toda”, diz.

“Mas tenho muito incentivo da minha família e nunca mais olhei para trás. Às vezes paro e penso: ‘caramba, a única certeza que tenho na vida é que não vou voltar para aquilo’. Amo muito pegar um dinheiro, ir ao cinema, ver um filme 3D com meus filhos. Minha vida é só celebração, tudo é motivo de celebração, porque estive à beira da morte.”

Com informações do portal G1. 

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