Como você está preenchendo seu vazio interior?

O ser humano busca preencher o vazio interior com drogas ou comportamentos recorrentes. É o que afirma o médico e escritor húngaro-canadense Gabor Maté, 69 anos, em uma entrevista para a revista Vida Simples do mês de agosto. Para Maté, nenhum tratamento para a dependência química surtirá efeito se não for tratada a causa, no qual ele dá o nome de vazio.

Autor de quatro livros em que investiga a dependência química, transtornos de déficit de atenção e outras enfermidades, lançou em 2011 “In the Realm of the Hungry Ghosts” (No Reino dos fantasmas Famintos, em tradução livre), que se tornou best-seller no Canadá e nos Estados Unidos.

Em sua rotina diária, conta Maté no livro, um dependente está sempre tentando aliviar o sofrimento. “É assim que começa: os dependentes sofrem antes mesmo de dependerem de alguma substância ou comportamento. É dessa dor que estão fugindo quando se drogam”, diz.

Para Maté, sentir-se vazio por dentro é a coisa mais antiga da espécie humana. “A necessidade de ser preenchido pelo exterior é inerente à nossa espécie. Álcool, jogos, compras, internet, videogames, sexo… qualquer coisa é uma justificativa para preencher este vazio”, afirma.

Segundo Maté, no nível biológico, muitas das dependências se equivalem: os mesmo mecanismos cerebrais que disparam a dependência em cocaína acionam a dependência em internet. “É por isso que você não tem que combater a droga em si, e sim a fome primordial dessa ânsia de preencher o vazio. Do que você sente falta? De onde vem esse vazio? Por que você esta desconectado de sua natureza verdadeira? Como você pode se ajudar a conectar de novo? Não importa qual é a droga, qual é o comportamento vicioso: estas são as perguntas que devem ver feitas”, sugere.

O médico é contra a internação compulsória pois, na opinião dele, não funciona. “Assim que você força as pessoas a serem tratadas, elas resistem – é algo natural, automático, nos seres humanos. Há maneiras melhores de tratar. Se você falar com as pessoas de maneira compassiva, aceitando-as como são, entendendo seu sofrimento, vão abrir suas portas de cura e não resistirão ao tratamento. O governo gastaria menos se convencesse as pessoas a se tratar em vez de forçá-las ao tratamento.”

Além da busca do entendimento do vazio, Maté defende o uso terapêutico da ayahuasca – substância obtida pela combinação de uma folha e um cipó, usada normalmente em alguns rituais religiosos – para o tratamento. O médico conseguiu fazer este tratamento experimental junto a aborígenes canadenses, dependentes de metanfetamina, e afirma ter obtido resultados surpreendentes. Segundo ele, o tratamento com ayahuasca é diferente da política de redução de danos, onde a droga ilegal é trocada por uma droga mais leve. Com esta política, você não trata diretamente do problema da dependência, apenas minimiza os efeitos e, por isso, pode ficar dependente da segunda substância. “Já com ayahuasca, você não está trocando uma substância por outra; está dizendo ‘essa planta vai te dar uns insights e experiência que irão ajudá-lo a compreender você mesmo, a amar você mesmo, e você não precisará usar mais drogas’”, analisa.

Segundo Maté, não é como um remédio no qual você vai tomar para o resto da vida. “Você bebe o chá talvez uma ou duas vezes na sua vida, ou uma vez por mês, no máximo uma vez por semana: a experiência é tão intensa que torna impossível causar dependência. Não é uma substância para se usar sozinho: mas ingerida com um guia, um apoio, em condições específicas, esta planta não causará mal. Vi muita gente abandonar as drogas após tratamento com a ayahuasca. Porém, precisamos de apoio legal para aprofundarmos as pesquisas”, afirma Maté.

Com informações da Revista Vida Simples

 

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