Estudos sugerem a reabilitação cognitiva para auxiliar o tratamento da dependência química

Os efeitos das drogas no cérebro e o dano causado por elas em funções cognitivas, como a memória, atenção e a capacidade de planejamento, foram temas de uma palestra apresentada pelo neuropsicólogo Paulo Jannuzzi Cunha, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), no World Congress on Brain, Behavior and Emotions, realizado em São Paulo, no fim de junho.

Cunha apresentou dados sobre pesquisas recentes sobre a reabilitação cognitiva, feita por meio de estímulos, como o jogo de xadrez, para ajudar a recuperação de parte das habilidades perdidas pelo uso de substâncias químicas. Segundo ele, o jogo é aliado com técnicas de uma abordagem científica conhecida como Entrevista Motivacional, onde o terapeuta ajuda o dependente a entender as motivações que o levam a usar drogas e o auxilia traçar metas para o futuro e estratégias para manter-se longe das drogas.

“Trazer de volta os neurônios que já morreram é impossível, mas podemos estimular as áreas que continuam preservadas e deixá-las mais fortes para compensar o déficit cognitivo. Os dados preliminares já evidenciam melhoria cognitiva nesses pacientes, mas precisamos ir além e entender de que forma isso representaria melhoria na vida diária e na recuperação deles a longo prazo”, afirma o neuropsicólogo.

Em entrevista concedida à Agência FAPESP, Cunha explicou que, embora cada droga tenha seu mecanismo de ação particular, todas atingem o sistema de recompensa cerebral. “Quando sentimos prazer, seja por estímulo físico ou emocional, há liberação de dopamina. Mas não ficamos alegres o tempo todo e, para retornar a situação de equilíbrio, essa dopamina precisa ser recapturada pelo neurônio que a liberou inicialmente. As drogas impedem esse processo de recaptura, estimulando a comunicação entre os neurônios do sistema de recompensa, intensificando e prolongando a sensação de prazer”, explica Cunha.

Segundo alguns estudos citados pelo neuropsicólogo, a maconha, por exemplo, provoca alterações vasculares, aumento no risco de derrame e a diminuição de certas regiões do cérebro como a amígdala e o hipocampo, que são ricas em receptores para o tetrahidrocanabinol (THC). Isso pode afetar diretamente a capacidade de memorização e a regulação de emoções como medo e agressividade.

Enquanto muitos pedem a liberação da maconha, porque poderia ser usada de forma medicinal, Cunha afirma que não há estudos suficientes para isso e que a maconha está cada vez mais potente e rica em THC – princípio ativo da droga e que está associado a problemas cognitivos e sintomas psicóticos. “Há autores que defendem a hipótese de que o canabidiol (CBD), outra substância presente na maconha, poderia ter algum efeito neuroprotetor. Mas nossos dados não permitem afirmar isso, até porque não temos informações sobre a concentração de CBD e THC na maconha que os pacientes fumaram. Além disso, quem fuma maconha não absorve apenas canabidiol, mas também altas doses de THC, que conhecidamente causa danos cerebrais”.

Há pessoas que são mais suscetíveis aos prejuízos causados pelas drogas. Cunha explica que isso se deve a fatores genéticos e/ou ambientais. “Todos os estímulos que recebemos ao longo da vida, a cultura adquirida, o aprendizado de línguas e de novas habilidades, fazem com que o cérebro forme um maior número de sinapses e isso gera uma reserva cognitiva. Quanto maior for essa reserva, maior é a resistência ao déficit causado pelas drogas ou por doenças como Alzheimer nas funções executivas e na memória”.

Com informações da Agência FAPESP

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *