“O crack virou epidemia”, adverte o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha

Ministro da Saúde se diz a favor da internação compulsóriaRevista Veja

O ministro da Saúde admite que a droga avançou mais rápido do que as ações de combate travadas contra ela e se diz favorável à internação compulsória de dependentes.

Caçula da Esplanada dos Ministérios, Alexandre Padilha, de 40 anos, assumiu o cargo em janeiro em meio a uma intensa discussão sobre a necessidade da criação de um novo imposto para financiar a saúde brasileira.

Dez meses depois, ele tem um diagnóstico claro sobre o assunto. Para o ministro da Saúde, é melhor arregaçar as mangas e fazer mais e melhor com o dinheiro disponível do que reclamar da falta de verbas. Para fazer o dinheiro render, Padilha incentivou a meritocracia – o ministério repassa mais dinheiro aos hospitais que atendem melhor. O Ministro também falou sobre a ruína provocada pelo crack no Brasil.

Pesquisas de opinião pública mostram que o brasileiro considera a saúde o pior serviço prestado pelo governo. O que está sendo feito para mudar essa percepção?

Nosso maior desafio é melhorar o atendimento à população. O SUS precisa ter obsessão pela qualidade. O Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que resolveu ter um sistema nacional público e gratuito.

A Índia, a China, o Paquistão, a Indonésia e os Estados Unidos não fizeram isso.

O sistema brasileiro tem 1 milhão de internações por mês, mais de 3,5 bilhões de procedimentos ambulatoriais. Mas essa dimensão não pode impedir que o SUS se preocupe com a qualidade.

Sim, mas como melhorar o atendimento?

Há duas linhas principais: a melhoria dos gastos e o combate aos desvios de recursos. Já começamos a criar políticas de incentivo financeiro pela qualidade. As equipes de saúde que prestarem um serviço melhor à população poderão ter o repasse de recursos federais dobrado. Já lançamos esse programa nos postos de saúde dos bairros.

As equipes são cadastradas, acompanhadas por um painel de indicadores de qualidade e pesquisas de avaliação do usuário. Quem reduzir o tempo de espera e melhorar a qualidade do atendimento vai receber mais.

Um discurso comum a todos os governos é que faltam recursos para a saúde. Falta mesmo dinheiro ou ele é malgasto?

Meu papel como ministro é fazer mais e melhor com o dinheiro que tenho. Não posso ficar parado esperando mais recursos chegarem.

O primeiro passo é incentivar a qualidade. O segundo é economizar e combater o desperdício de recursos.

Nos primeiros dez meses do ano, o ministério conseguiu economizar mais de 1,1 bilhão de reais só mudando a forma de compra de medicamentos.

Isso permitiu que colocássemos remédio de graça em farmácias para hipertensos e diabéticos. Economizando, combatendo o desperdício e procurando a eficiência, nós podemos fazer mais com o que já temos.

De uma vez por todas, o governo vai ou não vai criar um novo imposto para a saúde?

Isso nunca foi debatido no governo. Eu nunca recebi da presidente a determinação de defender a recriação da CPMF. O Congresso levantou esse tema do financiamento, é um debate importante para o futuro.

É lógico que ter mais dinheiro para a saúde seria importante. Mas o papel do governo é fazer mais com o que já tem.

O governo está há tempos prometendo lançar uma campanha de combate ao crack. Por que está demorando tanto?

Eu estive pessoalmente na Cracolândia de São Paulo no início do ano e observei de perto a deterioração provocada pelo crack.

Para mim, é evidente que essa droga se tornou uma epidemia, não há outro termo, não há como amenizar. Por isso, a ação não pode ser exclusiva da saúde. É preciso haver uma coordenação de ações de segurança pública, de educação, de reinserção social.

Nós, da Saúde, queremos pôr o dedo nessa ferida do crack e ajudar a cicatrizá-la. Já não é sem tempo, a epidemia avançou mais rápido do que as ações de combate.

O senhor é favorável à internação compulsória?

Precisamos ter serviços de saúde diferentes para situações diferentes. É grave ter centenas de pessoas se drogando na Cracolândia, com suas famílias desestruturadas, sem perspectiva de reabilitação.

Nesses espaços, é necessário ter consultórios de rua e pessoas capacitadas. Para esses casos, eu tenho a convicção clara, dentro do que a Organização Mundial de Saúde defende, de que a internação involuntária é fundamental para proteger a vida das pessoas viciadas.

Temos regras e protocolos para isso. Não é usar a polícia para carregar o dependente para uma clínica qualquer. É preciso a avaliação de um profissional de saúde, é preciso escolher um local adequado. Sou contra o recolhimento compulsório por policiais. Agora, eu defendo, sim, a internação involuntária em caso de risco de vida.

Outro problema que parece não ter solução é a infinidade de acidentes de trânsito causados por motoristas alcoolizados. A Lei Seca fracassou?

Há uma epidemia de acidentes no país. Em 2010, pela primeira vez o Brasil ultrapassou as marcas de 140 000 internações no SUS por acidentes e de mais de 40 000 mortos. Isso mostra que precisamos reforçar os sistemas de prevenção.

Logo que a Lei Seca foi criada, ela teve um impacto positivo. E os Estados que continuaram apertando a fiscalização também tiveram redução nos acidentes. O Rio de Janeiro é um exemplo. Por isso, em primeiro lugar é preciso intensificar a fiscalização, a lei não pode ser ignorada.

Também é necessário discutir no Congresso um reforço à punição prevista na lei. Uma pessoa que é flagrada dirigindo alcoolizada deve ser punida com rigor. Com multas pesadas, apreensão do carro, da carteira de habilitação. O Brasil não pode conti­nuar perdendo vidas para essa combinação de álcool com alta velocidade. A Lei Seca precisa conter esses motoristas.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou uma ofensiva contra a venda de remédios para emagrecimento. Não é uma intervenção excessiva do Estado na atividade médica?

Dou total autonomia às decisões da Anvisa, não tenho nenhuma influência [no órgão]. Agora, em saúde, é sempre melhor prevenir do que remediar. É sempre bom agir com o conceito da precaução. A Anvisa faz consultas públicas, ouve todos os lados e toma a decisão que acha correta, baseada unicamente em critérios técnicos.

Sobre esse tema dos remédios de emagrecimento, há posições diferentes entre os médicos brasileiros, há países que proíbem e outros que liberam.

Eu concordo com a decisão da agência, já que há muitos casos de remédios que foram liberados e só anos depois se descobriu que causavam problemas.

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